Não importa há quantas gerações são passados valores, cultura e tradição familiar: basta uma para que todas as gerações seguintes sejam afetadas.

Ora, são as comunidades e as famílias que transmitiram modos de viver através de virtudes, do amor e do respeito, da cultura e religião, e que se transformaram em povos. Unidos por valores e costumes em comum, assim foi se desenvolvendo o que chamamos de Ocidente, mesmo com suas nuances culturais e diferentes línguas. A educação, de responsabilidade prioritária dos pais, sempre se deu majoritariamente no seio familiar, e mesmo quando escolas de instrução foram sendo estabelecidas, a formação moral sempre se deu em casa. No entanto, vimos um processo de destacamento do papel dos pais e comunidades, passando-o ao Estado que, cheio de boas intenções, centralizou o ensino e formatou a moral em ética, além de ter transformado o conhecimento em um pragmatismo ligado ao cientificismo moderno. Muito prático e útil a princípio, porém vazio e frágil no longo prazo.
Especialmente ao longo do último século e meio, diversos movimentos moveram famílias nesta direção, o que não ocorreu somente por escolha. Houve o impulso do feminismo, que colocou as mulheres no mercado de trabalho, alavancado em alguns momentos históricos de guerra e pós-guerra – em que os homens estavam envolvidos (ou morrendo) nas batalhas; foi reduzida a capacidade de compra, quando vemos que nossos avós conseguiam ter sua casa própria e manter suas famílias numerosas, nossos pais poderiam levar décadas para isso e tiveram menos filhos, e a nossa geração em boa parte não tem como realizar essas conquistas, nem sobreviver (sem sacrifício) se ambos do casal não trabalharem – tornando obrigatória a terceirização da educação em escolas de estadia prolongada; há uma taxa crescente de divórcios, que afeta financeiramente e emocionalmente a família e dificulta as decisões sobre a educação das crianças; houve cancelamento da religião pelos ‘ilustrados’, religião que tem caráter de absoluto quanto ao que é justo, bem e verdade, e foi substituída por um senso de relativismo; e desenrolou-se o humanismo, que traz como uma de suas consequências um protagonismo egocêntrico, com a ideia de ser primordial o desenvolvimento pessoal individualista em detrimento da família e da comunidade; estes são apenas alguns dos fatores que podemos elencar.
E, movidos pela influência da nova cultura, que substituiu uma sociedade ocidental de valores por essa nova versão, parece tudo isso muito natural, embora persista em muitos a percepção de que há algo errado. Afinal, basta olhar para os resultados.
Vejamos alguns sinais e sintomas, particularmente nas crianças e adolescentes. O que colhemos deste plantio?
- Filhos expostos à violência periódica escolar, a exemplo do bullying crônico;
- Não atenção às necessidades individuais acadêmicas (tanto daqueles que apresentam dificuldades, como daqueles que têm altas habilidades, ou ainda outros por não terem seus interesses de estudo valorizados);
- Queda nos índices acadêmicos em praticamente todos os lugares nas últimas décadas;
- Persistência de abuso de drogas pelos jovens até dentro das escolas – onde muitos são introduzidos a elas;
- A vida sexual é antecipada – colocando em risco a saúde e o respeito a si mesmo;
- Exposição às agendas de gênero de forma irrestrita e irresponsável;
- Crescimento acachapante dos níveis de ansiedade, depressão e outras condições psiquiátricas em crianças e adolescentes – com consequências por toda a vida.
Sem falar nas cada vez mais frequentes tragédias em que jovens, muitas vezes estudantes ou ex-estudantes, vão a instituições de ensino para matar. Professores largam suas profissões nos primeiros anos de carreira, e seus relatos mostram que não é por baixo salário, mas pelo nocivo ambiente escolar. Realmente, há algo muito errado acontecendo por lá.
A doença da realidade escolar é crônica.
Isso não é recente. Tornou-se lentamente crônica a doença da realidade escolar. E praticamente normalizada, fazendo com que muitos achem ser esta apenas uma fase obrigatória de ‘sobrevivência’, quase que dando um sentido darwinista ao período da vida na escola pelo qual crianças e adolescentes parecem ter que passar.
Esse pensamento ignora que o ser humano é o que é porque não nasce pronto, depende de seus pais para sobreviver nas fases mais iniciais da vida, e precisa de cuidado como nenhuma outra espécie precisa, para que suas capacidades intelectuais se desenvolvam plenamente e adequadamente balizadas por um senso de realidade social e comunitário que continue a costurar o tecido social para a manutenção de nossos valores humanos, que nos fazem especiais. Porque técnica, por si, pode ser substituída por máquina. E é o que se projeta no horizonte – não podemos deixar o que nos faz ‘humanos’ acabar.
Mas há esperança.
Muitas famílias têm se movimentado contra esta normalização. Há adultos que voltam a estudar, que procuram a informação por sua própria iniciativa. Há jovens que procuram casamento mais cedo para constituir suas famílias. E ter mais filhos. Há pessoas que não se deixam mais levar pelo mainstream e que querem exercer sua autonomia de escolha em democracias.
Pais e mães que amam seus filhos fazem sacrifícios para educá-los de forma mais presente, com eles em casa e um dos genitores sem trabalhar, vivendo vidas mais modestas, para que as sementes sejam plantadas e os valores restaurados, para que virtudes sejam cultivadas, para não os deixar expostos à tamanha violência em idade tão tenra em que tudo produz profunda impressão e molda comportamentos para o resto da vida. Para fazê-los humanos em sua essência, valorosos para suas comunidades. Nos Estados Unidos, são crescentes as instituições de ensino superior que prezam pelos mesmos valores dessas famílias, e que sabem quão bem formados estes jovens podem ser e pelo impacto social benéfico que podem causar.
Não é preciso muito esforço para ver o quanto precisamos, cada um no seu papel, seja em casa, no bairro, na igreja, nas associações, no trabalho ou nas famílias, darmos o nosso melhor e compartilharmos as pessoas que somos pelo nosso modo de ser e pelos valores que prezamos. Colocando o que é importante – quem somos – em posição de prioridade. Queremos uma vida plena de sentido, e não cheia de experiencias vazias, de bugigangas e de solidão. Nossos ancestrais sofreram muito por isso, nossos antepassados educavam suas crianças e cuidavam de seus idosos. Aquela corrente que eles tanto se dedicaram para construir, que dava continuidade ao passado em um futuro sólido e humano, tem sido corrompida. Progresso tecnológico depende de homens com sabedoria. O rebaixamento do homem a um animal que pensa e que busca somente prazeres, cujo pensamento está sendo movido para os computadores com inteligência artificial, não deve continuar.
Sejamos proativos e perseverantes para fortalecermos nossa geração (e as próximas).
Sejamos, sobretudo, verdadeiros humanos.




